"É preciso falar sobre dinheiro em casa"
Fonte  Tribuna do Norte p. 3: Economia
Autor  Redação
Data de edição  13/11/2011
Data de captura  14/11/2011
Página/Seção  3: Economia / 
Gênero  Nota Informativa
Tiragem  24000
     
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"É preciso falar sobre dinheiro em casa"

Fim de ano é sinônimo de chuva de dinheiro no mercado, de ir às compras mais do que em qualquer outro período e de fazer o comércio faturar alto. É uma combinação que movimenta a economia, mas que, ao mesmo tempo, põe em risco o bolso e deixa a inadimplência e o endividamento ávidos por capturar o maior número possível de gastadores. Para o especialista em Finanças Pessoais pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e consultor do Programa Consumidor Consciente da MasterCard, Ricardo Pereira, há, entretanto, uma receita simples para consumir, sem ficar no vermelho ou no aperto depois: "Basta ter planejamento", afirma. Às vésperas do pagamento do 13º salário e da liberação do penúltimo lote de restituições do Imposto de Renda, é sobre como administrar esses recursos que ele fala a seguir. Pereira também defende que as famílias falem abertamente sobre dinheiro em casa, como forma de educar as crianças desde cedo. O assunto, segundo ele, ainda é considerado um tabu.

Crise no exterior e incertezas sobre o impacto disso na economia doméstica, endividamento, crescimento menor da economia...Como essa combinação de fatores age na cabeça do consumidor? A cautela realmente fica maior?

Esse período de final de ano é ainda mais propício aos apelos de consumo. Então ter cautela é essencial. Principalmente porque não sabemos o que acontecerá no ano que vem. E é importante começar o ano sem dívidas.

Ter cautela é o mesmo que ter consciência? Quer dizer, o consumidor cauteloso é o consumidor consciente que vocês defendem?

Na verdade o que nós defendemos é que o consumidor planeje seus gastos. Não é porque o momento é de incertezas que você deixará de consumir. Mas esse consumo precisa ser feito de uma forma planejada, de uma forma organizada. Então se você já se planejou para usar o 13º, para fazer uma compra, realizar um sonho, legal. O consumo é fundamental para que o país não caia numa recessão, para que as pessoas não percam emprego e tudo o mais. Mas o que nós defendemos é a realização dos objetivos e a realização de sonhos através do planejamento. É isso, do nosso ponto de vista, que torna o consumidor consciente.

Muito dinheiro vai entrar agora no mercado, com o 13º, mais restituições do Imposto de Renda. Ainda dá para se planejar ou o planejamento tinha ter sido feito antes de esse dinheiro chegar na conta?

O ideal seria que o planejamento tivesse sido feito antes. É preciso planejar de olho não apenas em um determinado momento do ano. Por exemplo, todo ano a gente sabe que vai chegar janeiro e tem pagamento de impostos, de material escolar..sabemos que tem isso todo ano, mas todo ano parece que é uma surpresa. E muita gente fica sem saber como fazer para pagar. A mesma coisa acontece na hora dos presentes do final do ano. Então é importante já ir guardando, ir poupando para não chegar agora no final do ano e precisar muitas vezes usar o 13º ou até mesmo a restituição para fazer o pagamento de dívidas.

E quem não fez esse planejamento até agora?

Deve agir com cautela e estipular limites para as compras de final do ano. É preciso evitar entrar em 2012 endividado.

Na ponta do lápis como se faz esse planejamento?

Primeiro tem que estipular o limite. Ver quanto vai receber agora de 13º, por exemplo, e definir quanto irá gastar com as compras, obedecendo a esse limite. Antes de comprar vai lá na loja, olha, conversa com o vendedor, tenta conseguir descontos, aí depois, numa segunda vez, vai lá já com dinheiro e compra ou divide no cartão. O cartão é muito importante porque tem um limite. Essa pode ser uma forma de controlar esses gastos. Então na ponta do lápis é importante definir o limite que você tem para gastar. Não é porque você recebe R$ 1 mil que você vai gastar os R$ 1 mil. É importante você pensar no futuro.

Você citou o cartão como ferramenta que pode ajudar a controlar os gastos, mas o efeito dessa ferramenta também pode ser inverso. O consumidor, ao usar o cartão, não vê o dinheiro indo embora naquele momento. Isso não dá uma falsa impressão de que a compra está saindo de graça naquele momento?

Exatamente. Muitas vezes o brasileiro que ainda está aprendendo a lidar o crédito acaba indo na idéia de que o crédito é dinheiro grátis. Mas não é. O cartão é mais uma das ferramentas de pagamento e como toda ferramenta é preciso saber utilizar. O importante nesse momento, quando for utilizar o cartão, quando for utilizar o dinheiro, quando for utilizar o cheque ou qualquer outro tipo de ferramenta, é você já saber o que vai comprar. Então você vai sair de casa já sabendo: eu vou gastar R$ 200 nisso, R$ 100 naquilo, então a partir daí você vai usar a ferramenta de pagamento da forma mais inteligente possível, que é com planejamento.

Qual seria o meio de pagamento ideal para esse período? Depende do produto, do valor da compra, o recomendado é pagar a vista?

O ideal seria pagar à vista e pedir desconto sempre que possível. Mas esse período do ano é extremamente complicado porque quanto mais próximo o Natal a tendência é que os preços aumentem. Os gastos também aumentam. Então é importante que o consumidor possa pesquisar, inclusive pela internet...Falando em internet, é preciso fazer um alerta: se deixar para comprar pela internet muito no final do ano talvez você não receba seus produtos...nos últimos anos tivemos problemas desse tipo. Então eu acho que está na hora de o brasileiro, de o consumidor brasileiro começar a perceber esses detalhes que envolvem as compras de final de ano e tentar reverter isso a seu favor. Tentar antecipar as compras aproveitando preços melhores, negociando, evitando ir lá nos últimos dois, três dias fazer as compras.. Se deixa para a última hora você acaba comprando mais caro, acaba muitas vezes comprando coisas sem necessidade, agindo cada vez mais a base da emoção e acaba muitas vezes fazendo maus negócios.

Você falou sobre compras na internet e esse é um setor que vem crescendo muito, na esteira das compras coletivas, por exemplo. Quais são os riscos? Os cuidados para não se endividar são os mesmo para comprar pela internet ou no ponto de venda?

A parte de planejamento não muda. O cuidado com o limite também não. A facilidade da internet é que você ainda consegue ter uma base comparativa maior, consegue pesquisar melhor. Mas o cuidado importante, nesse período de final de ano, é a questão dos prazos. Muita gente no ano passado deixou para fazer as compras na última hora, a demanda foi muito grande, as empresas ficaram sobrecarregadas e não conseguiram dar vazão à entrega dos produtos. As pessoas não receberam dentro do prazo. Então quanto antes comprar, você tem a oportunidade inclusive de ter preços melhores, já que no final do ano a procura é muito alta e os preços sofrem certa elevação.

E em relação ao dólar? Vimos uma disparada da moeda em setembro, muita gente desesperada quando a fatura do cartão chegou. Hoje é um risco? Como quem vai comprar lá fora ou pela internet, em sites estrangeiros, pode evitar surpresas?

Essa é uma questão delicada. Nós não sabemos efetivamente o que vai acontecer com a economia lá fora e como isso vai influenciar o câmbio. Então quem está pensando em viajar tem algumas possibilidades. A primeira é comprar dólar no decorrer do tempo para aproveitar preços menores, outra possibilidade é usar aqueles cartões em que você carrega o valor que planeja gastar e dessa forma não vai ter surpresa. Então é preciso ter cautela e colocar os gastos de uma forma mais coerente.

Nsse cenário de incertezas acredito que seja preciso ter mais cautela também na hora de apostar em parcelamentos maiores...

O parcelamento também deve ser feito com planejamento. É importante não comprometer mais do que 30% do orçamento com dívidas, com parcelamentos. O ideal era que não fosse preciso fazer parcelamento. Que as compras pudessem ser feitas sempre à vista, pedindo desconto.

Investir em educação financeira para as crianças, a partir da escola, poderia reduzir os índices de inadimplência e de endividamento, na sua visão?

Sem dúvida. Na escola é fundamental, mas também é fundamental, e talvez até mais do que na escola, que as pessoas comecem a discutir educação financeira, falar sobre planejamento, em casa. É muito comum perceber dentro de uma mesma família padrões de vida diferentes. O pai é esbanjador, a mãe já segura um pouco mais. A criança acaba se perguntando qual é o certo: é gastar muito, não gastar muito? Ela se pergunta o que vai fazer. Qual caminho deve seguir. No Brasil, hoje, a maior parte das famílias já conversa abertamente sobre sexo, sobre religião, sobre drogas, mas a questão financeira ainda é um grande tabu. Eu acho que o papel e o grande desafio da educação financeira nesse momento é quebrar esse tabu para que as pessoas comecem a falar em casa mais abertamente sobre dinheiro. É preciso falar sobre dinheiro.